As corredoras
Uma mulher passa correndo no asfalto ardente. Na casa de esquina, o homem deitado na rede levanta a sobrancelha esquerda de forma quase imperceptível, o máximo de atenção que se permite no calor abrasivo do domingo. Não se comove. Para falar a verdade, até acha graça em ver a pobre alma corajosa quebrando a monotonia sufocante da rua. Só quando a mulher dobra a esquina da praça e o homem deitado na rede não consegue mais vê-la é que aparecem outras duas corredoras. Ué, que estranho, diz para si mesmo.
Em pouquíssimo tempo, dezenas de mulheres repetem a cena, sozinhas ou em grupinhos pequenos. Trotam nervosas, castigadas pelo sol, levando papeizinhos brancos em frente ao rosto numa débil tentativa de proteger os olhos da luz implacável. A pressa e o passo torto fazem o homem deitado na rede lembrar de quando era criança e chutava formigueiros apenas para ver as formigas fugindo atarantadas, sem entender direito o que aconteceu. Crianças são bichos cruéis.
Na casa de esquina, nenhum cômodo, nenhuma posição é confortável. Em frente à varanda, o regador desenha arcos iridiscentes e guarda heroicamente um pouco do verde do gramadinho. Olhos premidos, o homem deitado na rede tem a nítida impressão de que sobe fumaça dos telhados vizinhos.
Alheias a tudo, as mulheres correm no asfalto ardente.
Um pedreiro que trabalha ali perto passa de bicicleta no sentido contrário e se diverte com aquela romaria sem sentido. Encontra um rosto familiar entre as caras desesperadas e pergunta o que que houve, mas o rosto familiar apenas suplica deixa eu subir aí, pelo amor de Deus! Mas o que foi, o pedreiro insiste, enquanto ela senta sem jeito no quadro de aço carbono. Dão meia-volta e ela começa a explicar, mas o homem deitado na rede não consegue entender a resposta, cada vez mais distante entre o murmúrio das corredoras.
Para o homem deitado na rede, há um quê de prazer nesse mistério bobo, em não saber. Imagina que está gravando um filme alternativo com a câmera fixa de seus olhos e sorri. Poderia calçar os chinelos de dedo, atravessar o gramadinho e fazer igual ao pedreiro, perguntar à primeira que passasse o que que tá acontecendo, mas para que estragar tudo? Ainda se diverte assistindo às formigas.
A próxima cena de seu filme alternativo começa com uma motoneta vermelha pedindo passagem entre as corredoras. A motociclista encontra uma mulher de vestido escuro, estaciona no meio da rua e tira um capacete extra de sob o banco. A mulher de vestido escuro coloca o capacete extra e sobe na motoneta. Um péssimo dia pra sair de preto, minha senhora, narra para si mesmo o homem deitado na rede. Ouve a motociclista gritar calma, vai dar tempo, vai dar tempo, enquanto buzina para abrir caminho.
Falando ao celular, outra mulher invade o campo visual do homem deitado na rede. Quê? Duas e meia. Du-as-e-mei-a! Entra na rua da oficina, tô quase chegando na praça. Desliga e não demora muito para que um automóvel freie bruscamente ao seu lado, atraindo a atenção das corredoras mais próximas. Algumas delas abandonam qualquer orgulho e imploram por carona. A mulher do celular se solidariza com os semblantes afogueados e indica a porta de trás. Na pressa de fugir do sol, cinco mulheres disputam os três lugares livres. No fim das contas, quatro delas se espremem no banco e expelem uma mulher mais jovem, que grita vaca! Enfia o carro no cu!
Bom, maratona é que não é. Ninguém sai pra correr de calça jeans, elabora o homem deitado na rede. E os papeizinhos? Até parece que ganharam na loteria e não tão querendo dar o prêmio pra elas, com os bilhetes assim, em riste. Será que é possível tanta gente acertar os números ao mesmo tempo?
Segue o cortejo. Um táxi entra em cena muito acima da velocidade permitida para aquela rua. O motorista baixa o vidro e pergunta se alguém quer corrida. Passando mal com o calor, algumas das mulheres mais lentas perguntam o valor e concordam resignadas em dividir a quantia inflacionada. Pouco tempo depois, outros dois taxistas surgem oferecendo o mesmo preço combinado.
Agora que restam poucas mulheres correndo no asfalto ardente, o homem deitado na rede se prepara para filmar o gran finale de seu curta-metragem saturado de sol. Faz um retângulo com as mãos espalmadas, o polegar de cada mão unido ao indicador da outra, e afasta essa câmera imaginária para enquadrar a última corredora. Antes de desaparecer na esquina da praça, ela diminui o passo, baixa seu papelzinho branco e olha em volta, perdida em todos os sentidos da palavra.
Isso, formiguinha, perfeito! Que baita cena pra subir os créditos, sussurra para si mesmo o homem deitado na rede, quase feliz.